quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Embaixo dos caracóis
Tento aqui dizer sobre uma máquina. Uma máquina que raspou os cabelos de Lúcia e sobre a dor tamanha que isso me causou.
E não foi só pelos cachos que lhe foram tirados – com sua autorização, sim, pois ela mesma me disse quando eu pergunto o motivo dela ter deixado cortar: “não gosto dele não!”.
Foi por mais uma vez ela ter sido negada da experiência de ter cabelos. Atitude essa manicomial que faz que todas as mulheres e homens institucionalizados tenham a cabelo raspado.
- É por causa da higiene. Eles dizem.
Que se dane a higiene!
Meu trabalho com Lúcia, assim como outros usuários do hospital psiquiátrico, mês a mês foi avesso a tudo isso que aprisiona. Apresentando-a a padaria, a praça, o restaurante, o teatro, o cinema... e até o salão, aonde pela primeira vez Lúcia foi, e lá aparamos cuidadosamente as pontas do seu cabelo que crescia com carinho. O cabelo de Lúcia crescia junto a sua descoberta pelo seu desejo e pelo desvendar da cidade.
Aí assim, se foram os cachos...
E eu definitivamente não estou falando de cabelos.
#hospitalpsiquiátrico
domingo, 3 de novembro de 2013
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Encontro dona Terezinha sentada num cantinho. Uma senhorinha doce que me lembra uma Preta Velha pela tamanha paz e graciosidade que tem.... sofrendo com a velhice que chegou. Pergunto se está bem, depois volto e dou um beijo estalado no seu rosto, ela ri, olha pra mim e diz:
“Você gosta de mim, né?” – “A gente tem amizade.”
#hospitalpsiquiátrico
“Você gosta de mim, né?” – “A gente tem amizade.”
#hospitalpsiquiátrico
terça-feira, 9 de julho de 2013
sexta-feira, 31 de maio de 2013
quarta-feira, 15 de maio de 2013

Passeio na praça
Na rua ela observa o carinho da mãe com o bebê,
pessoas passam e a cumprimentam,
pombos avoam,
cavalos passam,
pássaros gritam,
um grupo de adolescentes ri e corre bagunçando e colorindo o espaço,
os olhos dela enchem-se d´água.
Um sorriso inicia na face.
O que vem na mente dela eu não sei...
Espero.
Voltamos para o hospital – onde ela mora há mais de trinta anos.
Grades, ausência de cores, pobreza de afetos, contenção, medicação.
Onde é mesmo que ocorre o tratamento?
18 de Maio. Dia Nacional da Luta Antimanicomial.
sexta-feira, 12 de abril de 2013

Fila de supermercado de bairro. 17:30 da tarde - volta pra casa. Cervejinha e casa. Um moço bem aparentado de uns trinta e cinco anos na fila fala alto e reclama dos dois homens barbudos que viu beijando na praça. Eu olho. Respiro. Não vou entrar no meio, penso. Ai ele diz, que tem que ser igual com droga, que tem que ser escondido. Não agüentei. - Beijo não é droga e eles têm direito de se beijar onde bem entenderem! Olhos se esbugalham. – supermercadinho todo olha pra mim. Mas e os meus filhos?! – Ele diz, - Eles têm direito de se beijar onde quiserem! – repito. Saio logo, visto que conversa ali não ia ter jeito.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
domingo, 31 de março de 2013
segunda-feira, 25 de março de 2013
Segunda atribulada,
Noite mal dormida,
Chego no trabalho e escuto de longe “Oh Caoínaaa!”
Ouço de novo: - “Oh Caoínaa!”
Aproximo - com os olhos brilhando já.
- Seu nome é Caoína, né? – ele diz, de forma esquisita, mas dá para se entender.
- É isso mesmo! Bom dia R*! – Eu respondo.
Pronto. Valeu a pena.
Valeu a pena gravar Roberto Carlos pra você e colocar várias vezes para que possa cantar, e cantar com você, te levar na praça, na sorveteria, pedir para você vestir roupa mil vezes e explicar o motivo duas mil, dizer que não pode colocar o pão dentro da calça, sentar ao seu lado e dizer que não, que não vou te amarrar na cama!
Pronto. Valeu. - Ele sabe o meu nome! =)

sábado, 23 de março de 2013

Não mesmo!
Não gosto de sair aos sábados.
E cada sábado que passa tenho mais certeza,
Não gosto das ruas cheias, dos carros com som alto,
Do excesso de felicidade passageira.
Gosto da casa com ausência de sons,
Do estômago faminto,
Do banho sem pressa...
Pés frios no chão.
Gosto de ter tempo para um coração apertado.
segunda-feira, 18 de março de 2013
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Hoje eu queria te falar da minha dor,
das palavras que rasgam,
dos pré-conceitos concebidos – criados erroneamente, e pior, certamente divulgado.
Dói. Eu queria te contar e ter, hoje, seu colo para chorar.
Acontece que estou a aprender a ser só,
e viver com o vazio ao lado, camará, não é tarefa fácil.
Mas eu sou forte.
Eu me garanto.
Eu, eu sei de mim.
Mas ahhh camará, essa noite eu queria ter seu colo para me embalar.
Assinar:
Postagens (Atom)