quarta-feira, 27 de novembro de 2013





Embaixo dos caracóis

Tento aqui dizer sobre uma máquina. Uma máquina que raspou os cabelos de Lúcia e sobre a dor tamanha que isso me causou.
E não foi só pelos cachos que lhe foram tirados – com sua autorização, sim, pois ela mesma me disse quando eu pergunto o motivo dela ter deixado cortar: “não gosto dele não!”.
Foi por mais uma vez ela ter sido negada da experiência de ter cabelos. Atitude essa manicomial que faz que todas as mulheres e homens institucionalizados tenham a cabelo raspado.
- É por causa da higiene. Eles dizem.
Que se dane a higiene!
Meu trabalho com Lúcia, assim como outros usuários do hospital psiquiátrico, mês a mês foi avesso a tudo isso que aprisiona. Apresentando-a a padaria, a praça, o restaurante, o teatro, o cinema... e até o salão, aonde pela primeira vez Lúcia foi, e lá aparamos cuidadosamente as pontas do seu cabelo que crescia com carinho. O cabelo de Lúcia crescia junto a sua descoberta pelo seu desejo e pelo desvendar da cidade.
Aí assim, se foram os cachos...
E eu definitivamente não estou falando de cabelos.

#hospitalpsiquiátrico

Um comentário:

Anna Mª Amorim de Farias CRP06/39859-9 disse...

Fala de identidade, de liberdade, simplesmente SER...

Abraço,

Anna Amorim