quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

 O dia em que eu evadi da UPA

Começo essa história verídica dizendo: ficou tudo bem. E que a gente precisa prestar mais atenção ao próprio corpo — e, puta merda, homens melhorem!

Eu estava voltando de férias para o trabalho, gripada, cheia de catarro, corpo cansado, mas dando tudo de mim. Algumas colegas chegaram a me perguntar por que trabalhar assim. Mas eu não conseguiria ir ao médico e pegar um atestado logo no retorno das férias…

Segue Carolina.

Quinta-feira. Acordo com esforço, mas vou com calma. Saio às 7h35 da manhã, paro o carro a dois quarteirões do Centro de Saúde (era onde tinha vaga) e sigo andando em direção a ele. Estava de óculos, olhando tudo na rua, tipo uma sonhadora caminhante.
Vi um carro passar com alguém que acho que conhecia dirigindo, vi os moços da reciclagem separando as coisas e… PLUFT! Vejo um poste na minha fuça.

— Como assim eu não vi esse poste?

Doeu. Parei, respirei. “Vou seguir.”
Sigo. De repente, sinto o sangue quente escorrendo pelo rosto.

“Deve ter sido só um corte de nada”, pensei, e ainda tirei uma foto para o ponto ifpontocell marcando meu início no trabalho às 8h tampando o olho direito.

Entro no trabalho, começa a sangrar mais. Vou para a observação. Uma moça que eu ainda não conhecia limpou o corte, chamou médica, enfermeira, e veio o veredito:

— Vai precisar de três pontinhos. Tem que ir pra UPA!

Voltei para casa, deixei o carro e pedi um Uber para o Life Center, onde meu plano atende.

— Não tem mais cirurgião aqui — escutei assim que cheguei.

A médica me viu, disse que poderia suturar, mas que a mão dela era pesada. Eu decidia.

Oi?

Comentei da UPA, e ela disse que lá tinha cirurgião. Também avisou: não poderia passar de seis horas do corte para sutura.

UPA Centro-Sul — 9h40 da manhã, vazia.
A enfermeira me viu e já disse: não tem cirurgião.

UPA Leste — 10h. Serviço cheio. Muita gente aguardando.

11h15: classificação de risco e me encaminharam para o cirurgião.

Aguardo.

13h: pergunto quantas pessoas estão na frente. Nenhuma resposta clara. Falas hostis. Sento de novo.

Começo a tentar descobrir outros lugares de urgência que atendam meu plano. Com muito custo, descubro um hospital no Barro Preto.

“Mas uma hora chega minha vez. E é com o cirurgião”, penso eu, decidida a não arredar o pé dali.

13h30: um paciente homem que também aguardava começa a fazer carinho na cadeira ao meu lado e a me olhar fixamente. Inconveniente. Tosco.

Não deu. Levantei e, em um novo Uber, fui embora.

14h: chego ao hospital no Barro Preto. Tinha cirurgião, mas quem me atenderia seria um clínico.

Fui atendida uma hora depois.
Suturada por uma médica clínica às 17h.

Pelo menos foi com uma mulher, pensei.

Antibióticos comprados.
Primeira alimentação do dia feita.
Uber de volta para casa.

Só sei que foi assim.

Sim, chorei bastante hoje.

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