A decadência me acompanha semanalmente escancarada quando subo o morro do Taquaril para ir trabalhar na Unidade Básica de Saúde,
A rua principal que dá acesso ao postinho lá no meio da comunidade só passa um carro por vez, foram vários dias que tive que ficar atrás do ônibus ou achar um espaço numa ruela para outro carro passar.
A garagem da UBS não comporta todos os carros dos trabalhadores, deixo meu uno fire 2005 na rua, próximo a um muro que está pichado “não jogue lixo aqui” mas que desde as 7 da manhã moradores e trabalhadores passam carregando sua sacolinha do epa ou supermercados bh e as atiram por ali num espaço que se torna um grande lixo à céu aberto.
Nas segundas à tarde o caminhão de lixo passa e recolhe as sacolas do lugar que não seria de deixa-los, o caminhão é grande, tenho receio de arranhar meu uno quando ele desce de forma embalada o pequeno morro que dá acesso à garagem da UBS.
Dentro desse espaço de lixo já vi gato, cachorro, vários cabritos e até porcos rasgando sacolas, se misturando ao indesejado a procura de comida.
O cabritinho que antes me trazia alegria agora me causa certa repulsa, certa dor.
Ele é o lixo.
As adolescentes grávidas da escola ao lado do posto desfilam nas ruas com suas barrigas pontiagudas e atitude de criança ainda.
Vejo criança cuidando de criança de uma forma assustadora ali.
Meu luto nesse lugar tem sido diário.
Vejo sentido porque eu enxergo o outro e vejo as pessoas por inteiro, não apenas pedaços,
Mas vejo também o abandono, o descartável,
a decadência nua.
Isso me corta feito navalha
diariamente