segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Coragem

A decadência me acompanha semanalmente escancarada quando subo o morro do Taquaril para ir trabalhar na Unidade Básica de Saúde,

A rua principal que dá acesso ao postinho lá no meio da comunidade só passa um carro por vez, foram vários dias que tive que ficar atrás do ônibus ou achar um espaço numa ruela para outro carro passar.

A garagem da UBS não comporta todos os carros dos trabalhadores, deixo meu uno fire 2005 na rua, próximo a um muro que está pichado “não jogue lixo aqui” mas que desde as 7 da manhã moradores e trabalhadores passam carregando sua sacolinha do epa ou supermercados bh e as atiram por ali num espaço que se torna um grande lixo à céu aberto.

Nas segundas à tarde o caminhão de lixo passa e recolhe as sacolas do lugar que não seria de deixa-los, o caminhão é grande, tenho receio de arranhar meu uno quando ele desce de forma embalada o pequeno morro que dá acesso à garagem da UBS.

Dentro desse espaço de lixo já vi gato, cachorro, vários cabritos e até porcos rasgando sacolas, se misturando ao indesejado a procura de comida.

O cabritinho que antes me trazia alegria agora me causa certa repulsa, certa dor.

Ele é o lixo.

As adolescentes grávidas da escola ao lado do posto desfilam nas ruas com suas barrigas pontiagudas e atitude de criança ainda.

Vejo criança cuidando de criança de uma forma assustadora ali.

Meu luto nesse lugar tem sido diário.

Vejo sentido porque eu enxergo o outro e vejo as pessoas por inteiro, não apenas pedaços,

Mas vejo também o abandono, o descartável,

a decadência nua.

Isso me corta feito navalha

diariamente



quinta-feira, 9 de julho de 2026

 

Estou há quinze dias em SP e de alguma forma me parece apenas cinco dias... tentando registrar no meu corpo a experiência dessa cidade fria e cinza,

já fui em um show na Casa Natura de uma turma bonita de pernambuco, já vi um show na rua de um nordista raiz, já assisti há três peças de teatro e gastei uma tarde no MASP - me encantando e chorando.

Comi pão delícia, me enganei no pão delícia, entrei em pokes e conheci espaço de grupo de teatro.

Sem entender o motivo que as pessoas correm tanto no metrô, decorando as os sentidos do metrô e perdendo os meus...

Ainda um pouco aérea tentando entender tudo, ainda um tanto cheia no intuito de esvaziar,

escolhendo o silêncio e vendo as plantas trepadeiras subindo paredes da casa afora...

acho que me sinto assim, enraizando em SP pouco a pouco...

minhas unhas crescem e não tenho cortador.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

 

Como viajar é um trem precioso, estou em SP há cinco dias e a minha sensação são de semanas.

A intensidade diferente de um outro lugar é algo tão especial que me faz ecoar diferente

Saudade dos gatos e do gato e de mais absolutamente nada

Andar de metrô, habitar outra casa, sonhar noutra cama,

Tudo isso vira poesia.

Parece que ajuda a gente a crescer, sabe?

A parar de se ligar no pequeno, no mesquinho, coloca pra jogo o longe, o sonho, o improvável,

Cria novas possibilidades

Faz voar

domingo, 3 de maio de 2026

 


domingo e a ânsia de morte

a pulsão de desistência fez cantoria aqui hoje,

senti-me péssima em quase todas as instâncias possíveis e quis desistir.

acho que tive acolhida no silêncio, na água da fonte do gato,

na presença silenciosa e acolhedora deles,

e num suspirozinho de esperança que insisto em carregar me sentindo constantemente trouxa por isso, o mundo em neve severa e eu com um pequenino facho de luz quentinho segurando assim na mão esquerda iluminando quase nada à frente.

enquanto escrevo lágrimas caem,

quanto mais elas descem parece que mais espaço para eu existir dentro de mim tenho

eu não sei se é a vida perfeita do instagram

o tempo corrido

ou a absoluta falta de empatia das pessoas 

até o único vaso com flores que eu tinha hoje eu fiz morrer.

será que vão me amar mesmo assim?

segunda-feira, 20 de abril de 2026


uma solidão rasgada me encontra no feriado

o silêncio da casa

a rua sem obra

a cidade em calmaria

a ausência quase total de sons faz os meus pensamentos ganharem sons e correrem soltos pelos cômodos do meu apartamento enquanto os gatos brincam com as caixas de papelão e um rabo de fantasia de carnaval.


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

 O dia em que eu evadi da UPA

Começo essa história verídica dizendo: ficou tudo bem. E que a gente precisa prestar mais atenção ao próprio corpo — e, puta merda, homens melhorem!

Eu estava voltando de férias para o trabalho, gripada, cheia de catarro, corpo cansado, mas dando tudo de mim. Algumas colegas chegaram a me perguntar por que trabalhar assim. Mas eu não conseguiria ir ao médico e pegar um atestado logo no retorno das férias…

Segue Carolina.

Quinta-feira. Acordo com esforço, mas vou com calma. Saio às 7h35 da manhã, paro o carro a dois quarteirões do Centro de Saúde (era onde tinha vaga) e sigo andando em direção a ele. Estava de óculos, olhando tudo na rua, tipo uma sonhadora caminhante.
Vi um carro passar com alguém que acho que conhecia dirigindo, vi os moços da reciclagem separando as coisas e… PLUFT! Vejo um poste na minha fuça.

— Como assim eu não vi esse poste?

Doeu. Parei, respirei. “Vou seguir.”
Sigo. De repente, sinto o sangue quente escorrendo pelo rosto.

“Deve ter sido só um corte de nada”, pensei, e ainda tirei uma foto para o ponto ifpontocell marcando meu início no trabalho às 8h tampando o olho direito.

Entro no trabalho, começa a sangrar mais. Vou para a observação. Uma moça que eu ainda não conhecia limpou o corte, chamou médica, enfermeira, e veio o veredito:

— Vai precisar de três pontinhos. Tem que ir pra UPA!

Voltei para casa, deixei o carro e pedi um Uber para o Life Center, onde meu plano atende.

— Não tem mais cirurgião aqui — escutei assim que cheguei.

A médica me viu, disse que poderia suturar, mas que a mão dela era pesada. Eu decidia.

Oi?

Comentei da UPA, e ela disse que lá tinha cirurgião. Também avisou: não poderia passar de seis horas do corte para sutura.

UPA Centro-Sul — 9h40 da manhã, vazia.
A enfermeira me viu e já disse: não tem cirurgião.

UPA Leste — 10h. Serviço cheio. Muita gente aguardando.

11h15: classificação de risco e me encaminharam para o cirurgião.

Aguardo.

13h: pergunto quantas pessoas estão na frente. Nenhuma resposta clara. Falas hostis. Sento de novo.

Começo a tentar descobrir outros lugares de urgência que atendam meu plano. Com muito custo, descubro um hospital no Barro Preto.

“Mas uma hora chega minha vez. E é com o cirurgião”, penso eu, decidida a não arredar o pé dali.

13h30: um paciente homem que também aguardava começa a fazer carinho na cadeira ao meu lado e a me olhar fixamente. Inconveniente. Tosco.

Não deu. Levantei e, em um novo Uber, fui embora.

14h: chego ao hospital no Barro Preto. Tinha cirurgião, mas quem me atenderia seria um clínico.

Fui atendida uma hora depois.
Suturada por uma médica clínica às 17h.

Pelo menos foi com uma mulher, pensei.

Antibióticos comprados.
Primeira alimentação do dia feita.
Uber de volta para casa.

Só sei que foi assim.

Sim, chorei bastante hoje.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

 

Falta um dia para irmos embora, e esse sonho — essa experiência de viver outra cidade e viver de fazer teatro, apenas isso e nada mais — se vai.
Minha última turnê dessa forma aconteceu há exatos dez anos.
Por favor, universo, não demore tanto de novo para me mandar seguir com o teatro assim de novo.

Escuto Bad Bunny e sigo chorona…
Por vezes, parece que nunca saí dali, detrás do palco, de dentro dele, como se a vida aqui fora fosse mera desculpa para estar ali: plena, vermelha, jorrando poses, olhares ensaiados e falando da finitude da vida em um looping eterno.

Ahhhh, ser gente e teatro se misturam dentro de mim.
“Me ensinaste a querer, me ensinaste a bailar”, caro teatro.
Já não existe mais eu sem você…

Não quero ir embora com medo de te perder,
com medo de me perder.